O mundo dá voltas...

28.12.09

De 2009, mas até 1995

Pronto, tirei meus anéis e posso começar a escrever. Digitar, melhor dizendo. E posso hoje beber champagne em copo de cerveja. Porque posso. Mas me vejo dirigindo meu carro por esta cidade doida, debaixo de uma chuva torrencial, ouvindo Bon Jovi, porque eu posso.

E lá entre Keep the Faith e Hey God está Brokenpromissedland, música recém-lançada, mas que só representa o que esta banda e todo mundo está sentindo desde os anos 90. Não existe mundo com paz, não existe mundo com compaixão. Educação? Pelo menos aqui, quase uma raridade.

E eu só posso quebrar as regras, assim como faço no momento, porque o mundo de hoje já não tem regras. Cresci sabendo que cada copo tinha uma função. Canecas não são para beber água, são para leites, chás, taças servem vinhos, champagnes, copos altos de cerveja, são para as águas de cevada e trigo e lúpulo. Uma coisa é uma coisa, outra coisa, é outra coisa.

Mas não é mais assim.

Hoje não preciso me justificar para beber champagne em copo de cerveja e cerveja em caneca. Bebo e como como e onde quiser. Isso é herança dos anos 90 e do fim do século 20... aquele em que eu nasci e que meus filhos nem vão entender. Como não ter computador? Celular? Telefone sem fio já era raro.

Toda essa introdução é para dizer que eu estou satisfeita de não mais viver em um mundo com tantas regras, mas algumas podiam ser mantidas... mas nenhuma (quase) foi. Li que uma pessoa nascida nos anos 2000 não vai se manter em um único emprego por mais de 3 anos. E isso é bom... é? Eu sempre fui assim. Sou como uma espécie de geração Y antecipada.

Sempre escrevi, sempre contestei e sempre me dei bem fazendo isso. Só que hoje todo mundo está aprendendo a fazer isso. Quem não o faz está errado. E não muitas gerações atrás não se contestava autoridades ou poderia perguntar por quê. E tudo isso eu penso enquanto dirijo por São Paulo e vejo a chuva cair iluminando o chão de uma forma linda que eu posso só olhar para ele e saber que cor está o sinal e se tem buraco.

Eu desvio dos buracos como desvio de boa parte dos meus problemas. Desvio porque essa é minha geração. É um desvio entre o século 20 e o 21. Fomos nós que abraçamos a tecnologia, mas não nascemos com ela. Fomos nós que estipulamos que liberdade é não ter regras, mas sentimos falta das mesmas. Porque sem elas, não sabemos qual a direção que devemos ir. A questão toda é se rebelar das direções pré-existentes. Aquela ideia de que para ter sucesso é preciso ter poder, ou dinheiro, ou os dois. Porque com tanta gente no mundo já não há poder ou dinheiro que dê para a gente se sentir feliz. E há riqueza, é ali que mora nossa contentação.

Temos todos os dias que nos contentar com pouco de cada coisa, nem muito poder, nem muito dinheiro. Isso ainda está nas mãos das pessoas do século 20, não nos intermediários. Os poucos que conseguiram manter o raciocínio deles, é quem tem essas coisas, mas não é mais feliz, porque, no fim, a gente nunca tem o suficiente para ser feliz, a gente cresceu e criou o conceito de sempre - sempre - sempre querer mais.

Chego ao fim de 2009 ouvindo que a década acabou. Mas não acabou, e nem sempre foi assim. O fim de uma década é quando o ano 0 acaba, porque tudo se conta de 1 a 10, nada começa no 0, o 0 é um número perdido e mal compreendido.

Em 1989 as pessoas não queriam que a década acabasse. Eu vi pela televisão o Muro de Berlim cair. E eu vivi a Guerra Fria sem nem saber que a vivia. E 89 era o ano da mudança, e ninguém queria que a década acabasse ali... porque 89 era o ano em que culminou tudo o que a década de 80 pregava. Foi o ano de Winds of Change, dos Scorpions, e Right Here, Right Now, dos Jesus Jones. Músicas com sonoridades diferentes e mensagens muito semelhantes. A beleza de Winds of change é incomparável, se tornou um clássico no momento em que foi gravada e não havia ninguém nem banda alguma que conseguisse expressar a beleza daquele ano como os alemães que cresceram vivendo realmente a Guerra Fria sem saber porquê.

Os anos 90 começaram e o casamento dos meus pais terminou. Minha geração toda é aquela que viveu intensamente os anos 90, sentiu na pele os casamentos terminando sem problemas, os complexos de que a gente que não era bom filho era a prova de que os adultos não eram tão inteligentes ou capazes. Mas a comparação é com o ideal de super heróis que tínhamos deles, e que eles tinham aprendido a passar pros filhos com os pais deles. Os tempos já eram outros.

No ano de 1991 eu já não morava na mesma casa que meu pai e uma década começava. Ao tempo em que eu tentava procurar minhas raízes, ia atrás do que não era tão lógico. Era assim que minha adolescência começava, um pouco antecipada, I know. Eu ouvia New Kids on The Block e era apaixonada pelo Joey, que era a cópia do meu pai que dançava e cantava. Complexida, eu? Veio o Rock ‘n’Rio II, aquele que muita gente quer esquecer, e minha geração ama. Eu fui! Ver NKOTB. Feliz. Para quem tinha aprendido “Shut up”, como primeira palavra em inglês ao ouvir meus pais discutindo em um idioma diferente, aprendi que a música era capaz de me levar a mundos que me faziam sentir tudo ou nada, dependendo da minha vontade, e não a do mundo.

Ainda não existia iPod, mas eu sabia de uma coisa: minha vida teria trilha sonora, assim como tinha Barrados no Baile. Eu gravava fitas cassete e vendia pelo Estadinho sem medo de ser feliz e sem entender ou ter ideia de que eu estava cometendo um crime: a pirataria. Eu tinha meu quarto coberto de pôsteres e dançava todas as coreografias. Mas sabia que eu queria mais.

Cresci com primos homens. Sempre fui a única mulher no lado paterno. Aliás, até os 7 anos só tinha eu de mulher entre os primos e filhos da minha vó, aos 7 anos ganhei uma prima maravilhosa, mas ela não afetava meu “reinado”. Essa convivência me permitiu entender as diferenças entre meninos e meninas de uma forma muito sutil. E lá atrás, nos anos 80, eu dançava Michael Jackson e Madonna sem entender muito bem a diferença entre os dois, mas por não ter irmão mais velho e meus primos não terem irmãs, fui “adotada” pelos meus primos mais velhos.

Um deles me apresentou o rock, o idioma inglês como poesia com o Marillion, os teclados do Van Halen, e a rebeldia de unir o pop ao rock do Bon Jovi. O outro me introduziu ao conceito dos botões mil, dos joysticks, jogos, computadores como forma de simplificar a vida, a tecnologia e ao conceito de que a gente não precisa viver só o que a gente vive. Foi aí que comecei a escrever poesias.

Aprendi a sofrer com a mistura do sofrimento do pop, e do rock que se fortalecia novamente. Ouvia Roxette no último volume trancada no meu quarto, dançava na sala com NKOTB e nos meus momentos de introspecção sempre apelei para o Bon Jovi.

Listen to your heart embalou meus bailinhos desde os anos 80, e me acompanhou como música romântica até eu conhecer Living in Sin. Era mais dolorido. Era o que eu sentia... e eu fui para 1992 já conhecendo A-ha ao vivo.

O ano de 1992 foi louco para mim. Eu já tinha aprendido a viver com pais separados e aquilo se tornava normal para mim. Mas meus pais tinham muitas outras preocupações, eles estavam buscando quem eles realmente eram, assim como eu. A diferença básica era que adolescentes estão sempre procurando isso, eles são perdidos por natureza, os hormônios estão a mil. Pais, para os adolescentes, não deviam ter o direito de voltar atrás. E entre Spending my time e Tonight (NKOTB) eu descobri Keep the Faith e com ele, a política, em Dry County, talvez a minha música preferida do Bon Jovi até hoje.

Em 93 as discussões musicais faziam parte da minha rotina. Com isso ganhei e perdi amigos e amigas. Eu, fã de New Kids, contra os fãs de Guns ‘n’ Roses, que eu sempre gostei, mas não podia assumir. Foi quando eu pedi ao meu pai para me colocar em um curso de inglês decente. Fui pro Cel-Lep e precisava ter uma nova identidade ali. Lá eu era Nika, gostava de Guns, de New Kids, de INXS e aprendia como se o idioma fosse nativo.

Mas em março meu primeiro baque de verdade veio à tona. Meu avô, que era um modelo pra mim em vários aspectos, morreu. Eu era um ser estranho para ele, era mulher, menininha, neta, não gostava dos apertos, mas adorava a Rainbow, a baleia de cauda roxa, barriga rosa, cabeça dourada, que levava todos os netos para um mundo de magia e super heroísmo nas horas de dormir.

Comecei minha jornada pelo espiritismo sem saber o que isso era ao sonhar com meu avô noites e noites e noites sem fim. Minha relação real com ele foi assim, por meio dos sonhos. Nem arrepio hoje porque minha vó jura que me coibiu de alguma forma de ter mediunidade. Eu creio que isso é real pois desde que ela me disse isso, não mais sonhei com ele. Sinto falta.

E enquanto meus pais assumiam namorada e namorado, eu pastava num mundo de desilusão, sem saber a quem recorrer. Minha vó é talvez a pessoa mais importante na minha vida, por saber me ouvir, me aconselhar e dizer claramente que não sabia como era viver a minha época quando as pessoas tentavam criar alguma forma de viver os anos 90 sem comunismo, sem Guerra Fria, sem falta de liberdades, mas com um excesso de falta de crença.

Não, eu não gostava de músicas brasileiras, apesar de admirar Paralamas, Ira! e amar Engenheiros do Havaí. E nunca gostei de Legião, mas lia Cazuza como se fosse Lygia Fagundes. Só fui dar atenção alguma ao som brasileiro do rock em 1994.

Era o ano dos meus 15 anos. Eu pedia terapia, meu pai achava que filha dele não tinha como ter problemas. Vou pular muita coisa desse ano, que talvez tenha sido o que eu aprendi o que significa “ups and downs”. Bem resumidamente, fiz uma festa de 15 anos em que meu pai proibiu a presença da minha mãe e tal qual a família dela, que apesar de convidada, não quis ir. Mas o que eu tinha pedido pro meu pai era simplesmente uma viagem: sozinha.
Fui pra Disney e esse foi um dos momentos que dividem rios na minha vida. A viagem para a Disney merece não só um conto, mas um livro à parte por tudo o que significou pra mim e o que ajudou a construir.

Esse ano de 1994 foi crucial para formar quem eu sou hoje. Fiz amigos que tenho até hoje, aprendi que inimigos não merecem atenção, me rebelei, e aprendi o que é tesão.

Não consigo nem escrever sobre 1994. Não em detalhes... e mais reticências... Muitos dizem que nessa época já estava nascendo a bolha da Internet, mas eu só queria saber de viver. Foi o ano em que eu aprendi uma coisa que me vale para toda a vida: eu vivo o que eu quero viver! E não quero morrer.

Foi o primeiro ano do resto da minha vida. E compreendendo completamente o que dizia Someday I’ll be Saturday Night e Runnaway Train (Soul Azylum), virei 1995 na agenda.

E em 2009, a chuva cai. Eu sei que não serei justa se continuar escrevendo.