Assunto sério
Demorei a escrever sobre o assunto porque é mesmo difícil de digerir tudo o que está acontecendo. Segunda-feira me senti como se estivesse em Israel, onde os cidadãos convivem com o terrorismo diariamente mas, como bem lembrou meu tio, "lá pelo menos eu poderia estar andando com uma Uzi à tiracolo para me defender, aqui tenho que rezar para fazerem alguma coisa".
Me lembrei de toda aquela discussão sobre o desarmamento e sobre um e-mail que eu mandei na época para o Blue Bus. Estávamos discutindo o quanto o governo estava gastando para fazer um plebiscito sobre a venda de armas e eu, assim como outros vários cidadãos, pensei "Só posso lamentar que o governo gaste R$ 202 milhoes em um referendo que comprova a falta de competência de nossas polícias e a impunidade do sistema judiciário. Se me ouvissem em Brasília, diria para gastar em educação, geração de empregos e programas de reintegração de pessoas com passado criminal à sociedade. Acredito que todo ser humano seja capaz de aprender se provarmos que isso será melhor para ele".
Assistindo ontem à noite o Jornal da Globo, fico sabendo que o Presidente Lula disse que "qualquer um concordaria em gastar mais em construir escolas do que presídios". Talvez, mas a própria apresentadora ressaltou que muitos dos criminosos do PCC vieram da classe média, não lhes faltou educação ou opção. Eles acharam que ser criminoso era o caminho mais rápido para alcançar o que pretendiam e assim o fizeram. Então, como mudar pessoas? Oportunidades de emprego faltam a quem quer, oportunidades de cometer crimes, não.
Não é exclusividade de culpa do governo Lula, ou da gestão atual do governo de São Paulo, mas eles não podem nos abandonar só porque a culpa não é deles. Um país democrático dá poder a pessoas para que cada um cumpra sua parte. Não estão cumprindo o que nos prometeram. E está na constituição, o Estado é responsável por garantir a segurança aos cidadãos. Outro dia li que um cidadão em algum estado brasileiro conseguiu (anos e anos depois do ocorrido, claro) uma indenização do estado em que vive por ter sido seqüestrado e ter tido o carro roubado, afinal, o Estado era responsável por lhe garantir segurança. Sendo assim, todas as empresas que deixaram de produzir por fecharem mais cedo na segunda-feira e até a Bovespa, que cancelou o After Market, deveriam processar o Estado de São Paulo por terem perdido dinheiro neste dia porque ficamos reféns de bandidos, mesmo estando em casa.
Li o texto de outra leitora do Blue Bus publicado ontem e ela disse que ouviu de muita gente que "se fosse na época da ditadura não seria assim". Tenho que concordar. Não seria assim, seria pior. Primeiro: não saberíamos das coisas porque a imprensa não poderia nos informar exatamente como as coisas são, já que tudo passava pela censura. Segundo: em um período em que já era crime o simples fato de não se concordar com o modelo político vigente, imaginem o que não morreria de gente que era considerado subversivo à ordem?
Não há como apontar o dedo e ficar passando a culpa de um governo para outro. Todos os que foram corruptos, todos os que atrasaram processos criminais, todos os que levaram celulares para dentro das cadeias, aquele técnico de som que vendeu a fita sigilosa com depoimentos de delegados para os advogados do chefe do PCC por R$200. Todos têm culpa. Não têm culpa os que trabalham honestamente, os que respeitam as leis, os que pagam os impostos. Assim como também não foram esses últimos que receberam dinheiro do Valerioduto, absolveram os que se declararam culpados de roubar dinheiro público.
Temos que mudar a forma de agir sim, a começar pela próxima eleição. Elegemos um senado que só acorda quando estamos em crise, uma câmara que perdoa a si mesmo pela corrupção, um governo que mais se desculpa do que age. Vamos mudar quando todos somos iguais a eles: na hora do voto. Que tal?

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